domingo, 19 de outubro de 2014

Ser gay: orientação ou condição?

Recentemente vi um post no Facebook do MVG que gerou uma certa polêmica, quando tratei a homossexualidade como orientação e não como condição. Alguns dos poucos fãs que comentaram, manifestaram uma antipatia pela palavra “orientação”, preferindo veementemente a palavra “condição”. Afinal, quais dos dois termos é o correto?

Antes de mais nada, o fato de tais conceitos polemizarem, revela o quanto o nosso próprio grupo anda desestruturado, no sentido da desordem, para que os próprios gays se contextualizem e se assegurem. Já não era hora de sabermos definir tais conceitos sem ter dúvidas?

Pois bem, ainda polemizamos sobre tal fato “condição VS. orientação” e, como qualquer assunto que sai do Blog MVG, é necessário haver embasamentos e reflexões, muito além da imposição. Se não se debate, se não se discute com argumentos, não se desenvolve o senso crítico ou critérios.

Claro que o MVG tem aqui um ponto de vista e os seus por quês.

- Ser gay não é condição porque não somos pessoas condicionadas a alguma coisa externa a nós mesmos para sermos gays. Nos condicionamos sim, muitas vezes, para sermos enrustidos! Talvez estejamos condicionados aos nossos sentimentos e desejos por outro do mesmo sexo, mas isso é um tanto óbvio, todos nós estamos, gays, heterossexuais, g0ys, transgêneros, etc.

A nossa natureza caminha por identificação. Num contexto social, diante de um certo conflito com heterossexuais que impõem a sua maneira, podemos até tratar a homossexualidade como uma condição (defesa) e o próprio verbo “condicionar” se refere a alguma coisa externa ao objeto. “O pai está condicionado a levar o filho ao shopping de carro. O menino só vai se for de carro”. “Eu só vou conseguir comprar um novo celular na condição de receber meu salário a tempo”.

Mas eu sou gay. A exatamente a o quê eu estou condicionado? A um sentimento reativo e ativista contra os heterossexuais? Desculpem, mas a minha homossexualidade não depende dos heterossexuais. Eu não sou gay porque não quero ser heterossexual.

Aliás, ser homossexual não depende de nada, a não ser pela natureza interior de identificação, e estar condicionado a algo sugere uma pressão de valores externos. Acontece que eu não sou gay porque fulano é hétero. Eu não imponho a minha condição gay porque beltrano impõe a sua condição heterossexual. São identidades distintas que, em um contexto de orientação, não competem.

- Ser gay é uma orientação porque a orientação nos dá o livre arbítrio. “Minha mãe me orientou sobre os caminhos profissionais possíveis. Eu poderia ser professor, médico, advogado, administrador, publicitário, designer, entre tantas outras profissões. Senti as possibilidades e me identifiquei com determinados caminhos. Em nenhum momento ela disse que tal profissão seria a melhor. Isso se chama orientação”. A orientação não coloca condições do tipo: “faça medicina porque assim você estará condicionado a melhores ganhos financeiros”. “Seja gay porque assim você se dará mais ou menos bem”. A orientação é diretamente relacionada àidentificação inerente ao próprio indivíduo sem a manipulação, influência ou cobrança externas. São particulares e pessoais, e não se condicionam a opiniões, imposições ou preferências de outras pessoas. Não é exatamente assim quando o assunto é a sexualidade? Então, não me venham falar de condições…

Portanto, amigos leitores, embora os termos não estejam devidamente institucionalizados e difundidos, apesar de haver uma certa “pressão heterossexual” querendo nos condicionar a uma determinada regra do jogo, não me sinto suficientemente capaz de entender a homossexualidade como uma outra condição. Não desejo que o hétero se condicione às sentimentalidades e emoções dos gays nem vice-versa. Nesse caso, espera-se compreensão, o que é bem diferente de condição. Condição subetende alguma imposição.

Cabe a todos os indivíduos, serem orientados sobre a diversidade sexual existente para que cada um encontre uma identificação. Assim, cada um terá a liberdade de se orientar por um dos caminhos apresentados (por um bom educador ou pela própria vida) cujos estímulos serão inerentes a cada indivíduo. Tal orientação, hoje, não se vem dos pais, muito menos dos professores, mesmo porque a orientação nesse país é rasa e parcial. Mas isso são outros quinhentos.

Essa coisa de que gay é uma condição, hoje, a mim, não deixa de ser uma necessidade autoafirmativa do gay, porque gostos, simpatias e desejos, todos temos depois de devidamente orientados sobre as possibilidades sexuais que nos trarão mais ou menos identificação.

Convenhamos: ninguém muda o gosto e preferências de um gay, nem de um heterossexual. A condição já é óbvia a todos. Estamos condicionados aos nossos gostos (Dãr! – rs). “Eu, durante meu crescimento, me identifico. Logo, me oriento”. Orientar não significa impor, pelo contrário. Orientar significa transmitir e apresentar a abrangência de possibilidades sobre determinado assunto com imparcialidade, para que o indivíduo orientado tenha liberdade de identificação. Tal explicação funciona desde para um orientador vocacional, orientador de TCC, um orientador sexual e qualquer outro orientador que seja, no mínimo, ético. Não está sob julgamento a capacitação do orientador, nesse caso. Condição gay, no final, é mais um subterfúgio para nos autoafirmarmos: “daqui ninguém me tira”. Mas quem disse que dessas coisas a gente entra ou sai quando bem entender? Não é escolha, não é opção e, condição, não deixa de ser aquela vontade atual de afirmar que estamos certos com o que somos. Não tem “certo” em ser gay, nem em ser heterossexual.

O que estou fazendo aqui é um ato de orientação. Orientação gay.

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